por Rev. Alderi Souza de Matos (retirado do www.ipb.org.br)
A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação
de igrejas que têm em comum uma história, uma forma de
governo, uma teologia, bem como um padrão de culto e de vida
comunitária. Historicamente, a IPB pertence à família
das igrejas reformadas ao redor do mundo, tendo surgido no Brasil
em 1859, como fruto do trabalho missionário da Igreja Presbiteriana
dos Estados Unidos. Suas origens mais remotas encontram-se nas reformas
protestantes suíça e escocesa, no século 16,
lideradas por personagens como Ulrico Zuínglio, João
Calvino e João Knox. O nome “igreja presbiteriana”
vem da maneira como a igreja é administrada, ou seja, através
de “presbíteros” eleitos democraticamente pelas
comunidades locais. Essas comunidades são governadas por um
“conselho” de presbíteros e estes oficiais também
integram os concílios superiores da igreja, que são
os presbitérios, os sínodos e o Supremo Concílio.
Os presbíteros são de dois tipos: regentes (que governam)
e docentes (que ensinam); estes últimos são os pastores.
Atualmente, a Igreja Presbiteriana do Brasil tem aproximadamente 3.840
igrejas locais, 228 presbitérios, 55 sínodos, 2.660
pastores, 370.500 membros comungantes e 133.000 membros não-comungantes
(menores), estando presente em todos os estados da federação.
Quanto à sua teologia, as igrejas presbiterianas são
herdeiras do pensamento do reformador João Calvino (1509-1564)
e das notáveis formulações confessionais (confissões
de fé e catecismos) elaboradas pelos reformados nos séculos
16 e 17. Dentre estas se destacam os documentos elaborados pela Assembléia
de Westminster, reunida em Londres na década de 1640. A Confissão
de Fé de Westminster, bem como os seus Catecismos Maior e Breve,
são adotados oficialmente pela IPB como os seus símbolos
de fé ou padrões doutrinários. Outras igrejas
presbiterianas adotam documentos adicionais, como a Confissão
Belga e o Catecismo de Heidelberg. O conjunto de convicções
presbiterianas, conforme expostas no pensamento de Calvino, de outros
teólogos e dos citados documentos confessionais, é denominado
teologia calvinista ou teologia reformada. Entre as suas ênfases
estão a soberania de Deus, a eleição divina,
a centralidade da Palavra e dos sacramentos, o conceito do pacto,
a validade permanente da lei moral e a associação entre
a piedade e o cultivo intelectual.
No seu culto, as igrejas presbiterianas procuram obedecer ao chamado
princípio regulador. Isso significa que o culto deve ater-se
às normas contidas na Escritura, não sendo aceitas as
práticas proibidas ou não sancionadas explicitamente
pela mesma. O culto presbiteriano caracteriza-se por sua ênfase
teocêntrica (a centralidade do Deus triúno), simplicidade,
reverência, hinódia com conteúdo bíblico
e pregação expositiva. Na prática, nem todas
as igrejas locais da IPB seguem criteriosamente essas normas, embora
as mesmas tenham caracterizado historicamente o culto reformado. Os
problemas causados pelo afastamento desses padrões têm
levado muitas igrejas a reconsiderarem as suas práticas litúrgicas
e resgatarem a sua herança nessa área fundamental. Quando
se diz que o culto reformado é solene e respeitoso, não
se implica com isso que deva ser rígido e sem vida. O verdadeiro
culto a Deus é também fervoroso e alegre.
Finalmente, a vida das igrejas presbiterianas brasileiras não
se restringe ao culto, por importante que seja. Essas igrejas também
valorizam a educação cristã dos seus adeptos
através da Escola Dominical e outros meios; congregam os seus
membros em diferentes agremiações internas para comunhão
e trabalho; têm a consciência de possuir uma missão
dada por Deus, a ser cumprida através da evangelização
e do testemunho cristão. Muitas igrejas locais se dedicam a
outras atividades em favor da comunidade mais ampla, como a manutenção
de escolas, creches, orfanatos, ambulatórios e outras iniciativas
de promoção humana. Cada igreja possui um grupo de oficiais,
os diáconos, cuja função primordial é
o exercício da misericórdia cristã. O presbiterianismo
tem uma visão abrangente da vida, entendendo que o evangelho
de Cristo tem implicações para todas as áreas
da sociedade e da cultura.
De onde viemos?
O presbiterianismo ou movimento reformado nasceu da Reforma Protestante
do século 16. Tendo o protestantismo começado na Alemanha,
sob a liderança de Martinho Lutero, pouco depois surgiu uma
segunda manifestação do mesmo no Cantão de Zurique,
na Suíça, sob a direção de outro ex-sacerdote,
Ulrico Zuínglio (1484-1531). Para distinguir-se da reforma
alemã, esse novo movimento ficou conhecido como a Segunda Reforma
ou Reforma Suíça. O entendimento de que a reforma suíça
foi mais profunda em sua ruptura com a igreja medieval e em seu retorno
às Escrituras fez com que recebesse o nome de movimento reformado
e seus simpatizantes ficassem conhecidos simplesmente como “reformados”.
Ao morrer, em 1531, Zuínglio teve um hábil sucessor
na pessoa de João Henrique Bullinger (1504-1575). Todavia,
poucos anos depois surgiu um líder que se destacou de todos
os outros por sua inteligência, dotes literários, capacidade
de organização e profundidade teológica. Esse
líder foi o francês João Calvino (1509-1564),
que concentrou os seus esforços na cidade suíça
de Genebra, onde residiu durante 25 anos. Através da sua obra
magna, a Instituição da Religião Cristã
ou Institutas, comentários bíblicos, tratados e outros
escritos, Calvino traçou os contornos básicos do presbiterianismo,
tanto em termos teológicos quanto organizacionais, à
luz das Escrituras Sagradas.
Graças aos seus escritos, viagens, correspondência e
liderança eficaz, Calvino exerceu enorme influência em
toda a Europa e contribuiu para a difusão do movimento reformado
em muitas de suas regiões. Dentro de poucos anos, a fé
reformada fincou sólidas raízes no sul da Alemanha (Estrasburgo,
Heidelberg), na França, nos Países Baixos (as futuras
Holanda e Bélgica) e no leste europeu, onde surgiram comunidades
reformadas em países como a Polônia, a Lituânia,
a Checoslováquia e especialmente a Hungria. Em algumas dessas
nações, a reação violenta da Contra-Reforma
limitou ou sufocou o novo movimento, como foram, respectivamente,
os casos da França e da Polônia. As igrejas calvinistas
nacionais da Europa continental ficaram conhecidas como igrejas reformadas
(por exemplo, Igreja Reformada da França).
Outra região da Europa em que a fé reformada teve ampla
aceitação foram as Ilhas Britânicas, particularmente
a Escócia, cujo parlamento adotou o presbiterianismo como religião
oficial em 1560. Para tanto foi decisiva a atuação do
reformador João Knox (1514-1572), que foi discípulo
de Calvino em Genebra. Foi nessa região que surgiu a designação
“igreja presbiteriana”. Na Inglaterra e na Escócia
dos séculos 16 e 17, o presbiterianismo representou uma posição
ao mesmo tempo teológica e política. Com esse termo,
as igrejas reformadas declaravam que não queriam uma igreja
governada por bispos nomeados pelos reis (episcopalismo), e sim por
presbíteros eleitos pelas comunidades. Foi na Inglaterra que,
em meio a uma guerra civil, o parlamento convocou a Assembléia
de Westminster (1643-1649), que elaborou os documentos confessionais
mais amplamente aceitos pelos presbiterianos ao redor do mundo.
Nos séculos 17 e 18, milhares de calvinistas emigraram para
as colônias inglesas da América do Norte. Muitos deles
abraçavam a teologia de Calvino, mas não a forma de
governo eclesiástico presbiterial proposta por ele. Foi esse
o caso dos puritanos ingleses que se estabeleceram na Nova Inglaterra.
Ao mesmo tempo, as colônias norte-americanas também receberam
muitas famílias presbiterianas emigradas da Escócia
e do norte da Irlanda. Foram essas pessoas que eventualmente criaram
a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, cujo primeiro concílio,
o Presbitério de Filadélfia, foi organizado em 1706
sob a liderança do Rev. Francis Makemie, considerado o “pai
do presbiterianismo norte-americano”. O primeiro Sínodo
foi organizado em 1717 e a Assembléia Geral em 1789. Em 1859,
a Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos
Estados Unidos enviou ao Rio de Janeiro o Rev. Ashbel Green Simonton,
fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil.